cartas e praças

Quando recebo uma mensagem, ela chega como uma carta contemporânea. Não tem envelope e nem selo, mas tem um conteúdo. Não está escrita em um papel, mas é feita de palavras. Não tem uma assinatura no final, mas sabe-se de quem é e que este espera alguma resposta.
Por dia, abrimos muitas cartas. Abrimos cartas ao acordar, sentados no vaso sanitário, enquanto comemos, arriscamos ler enquanto dirigimos, e durante o bom dia do porteiro. Abrimos cartas no ônibus, no ponto de ônibus, na caminhada até em casa.
E não só abrimos, também respondemos.
Nas cartas contemporâneas não precisamos de uma mesa para apoiar o papel, afinal, tantas cartas nem de papel são feitas. Então respondemos onde estamos. Respondemos enquanto fazemos o pedido do almoço, durante a saída da reunião, enquanto espero o café coar, apoiando palavras em presenças difusas.
No final do dia, quantas cartas eu abri e respondi? E as tratei como cartas? Pois o ato de receber e responder mensagens não é tão diferente disso…

Algo parecido vale para as redes sociais, onde entramos em espaços virtuais lotados de gente. É como se entrássemos em uma praça onde estão aglomeradas 2376 pessoas. Todos os dias estamos nesse ambiente superlotado. Gostamos tanto assim de multidões? Seríamos capazes de todos os dias estar em uma praça com tantas pessoas?
Talvez não, e talvez não suportamos mais tanto. Mas ainda nos levamos até essas praças.
Talvez sejamos mais sensíveis do que pensamos. E todos os dias, rodeados de multidões, quem sou eu senão a excitação de todos esses encontros, choques e vozerios?

Sejam cartas e sejam praças. Que a gente saiba escolher os momentos para ir a essas experiências. Ou saber quando deixar entrar.

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