conte suas cicatrizes

cicatriz,

seria uma marca que me atua, feito uma atriz?

ou um sinal da vida que em mim foi por um triz?

carrego essa palavra no joelho, no pulso direito, no queixo, no lado de dentro do peito

rachaduras do tempo por onde sementes bonitas escolheram nascer

e às vezes até torço para que elas cresçam muito a ponto do buraco esconder

me arde a pele recém curada da solidão,

quando perdi o pai e me tornei a filha enlutada

ou quando o procurei depois de ter sido violada, 

ou quando aprendi que é aceitável ser desrespeitada

a casquinha mole da ferida da prisão,

de tudo que me impede de ser livre por pura convicção,

ou do que creio precisar ser pela melhor impressão

a coceira faz sangrar a saudade do que deixo de viver quando escolho ainda sofrer

talvez as cicatrizes me falem sobre o tempo, um tempo que não quero mais viver

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